Porque mulheres praticam menos esportes radicais?

Mulheres não praticam menos esportes radicais por falta de capacidade

Por que mulheres praticam menos esportes radicais?

A resposta não está em capacidade ou interesse individual, e os dados confirmam isso. Segundo a UNESCO, meninas abandonam o esporte até duas vezes mais que meninos na adolescência. Não é coincidência: é contexto. Um conjunto de condições sociais, culturais e institucionais que moldam quem se sente pertencente a determinados espaços.

Socialização desde a infância

Desde cedo, o incentivo é diferente. Meninos costumam ser estimulados a explorar, competir e assumir riscos físicos. Meninas, com frequência, recebem estímulos ligados ao cuidado, à segurança e ao controle do corpo.

A filósofa Judith Butler, em Gender Trouble (1990), argumenta que o gênero é produzido pela repetição de normas sociais. Com o tempo, certos comportamentos passam a parecer "naturais", e é assim que esportes de velocidade, impacto e risco vão sendo culturalmente associados ao masculino.

Falta de referências

Quando um esporte é representado quase exclusivamente por homens, ocorre um efeito de reprodução: menos modelos, menos identificação, menos novas praticantes. Se você não se vê, é mais difícil se imaginar ali. Representação não é apenas simbólica: ela influencia quem sente que pertence a determinado espaço.

Estrutura e acesso desigual

Mesmo sem proibição formal, muitos esportes são organizados por redes predominantemente masculinas. A cientista política Flávia Biroli aponta que desigualdades persistem por meio de barreiras institucionais e informais, como:

  • menor visibilidade de atletas mulheres

  • menos patrocínio

  • menos eventos ou categorias

  • ambientes pouco acolhedores

Como reforça a UN Women no relatório Sport for Generation Equality (2020), esse cenário ainda limita o acesso e a permanência de mulheres no esporte, aumentando o custo de entrada e de continuidade.


Construção cultural do risco

Esportes radicais costumam ser narrados como prova de coragem, bravura e domínio do corpo, atributos historicamente (e erroneamente?) associados ao masculino. A socióloga Raewyn Connell descreve esse processo como parte da hegemonia da masculinidade: quando certos espaços reforçam continuamente ideais masculinos dominantes.

Pressão social sobre o corpo feminino

Mulheres que se expõem ao risco físico frequentemente enfrentam julgamentos maiores. Questões sobre feminilidade, cuidado ou responsabilidade aparecem com muito mais frequência do que no caso de homens. Para muitas, entrar nesses espaços significa enfrentar julgamentos que vão além da performance.

O ponto central

Mulheres não praticam menos esportes radicais por incapacidade. A participação menor tende a resultar de:

  • socialização de gênero

  • construção cultural do risco

  • barreiras estruturais de acesso

  • falta de referências

  • pressão social sobre o corpo feminino

Esses fatores reduzem as probabilidades de entrada e permanência, especialmente em modalidades como o downhill, onde risco, velocidade e cultura de grupo são centrais.

Mas esse cenário está mudando. E muda, principalmente, quando mais mulheres ocupam esses espaços.

É nesse movimento que a Mel Brogni chega para somar ao time Sthorm Riders, como atleta e como referência para a próxima geração.

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Fontes: UNESCO, "Her Sport, Her Future" (2021); Women in Sport, "Reframing Sport for Teenage Girls" (2015); UN Women, "Policy Brief: Sport for Generation Equality" (2020); Judith Butler, "Gender Trouble" (1990).

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